Dinâmica e paradoxos
O paradoxo da semente e da chama
A chama gêmea é o paradoxo de ser dois sem deixar de ser um.
É como uma moeda: de um lado, uma face; do outro, outra face. Cada uma olha para uma direção, cada uma recebe uma luz diferente, cada uma carrega suas marcas, seu tempo, sua história. Mas, ainda assim, não existem duas moedas. Existe uma só matéria, um só centro, uma só origem.
Assim também é a alma.
Uma alma se divide, não para se perder, mas para se experimentar. Ela vem ao mundo em duas consciências, em dois corpos, em duas jornadas distintas, para aprender, ferir-se, curar-se, amadurecer e, um dia, reconhecer que aquilo que procurava fora sempre esteve dentro da própria matéria de onde veio.
A chama gêmea é como a semente.
Da semente nasce uma pequena planta. A planta cresce, enfrenta o sol, a chuva, os ventos, as tempestades, as estações. Ela se torna árvore. A árvore floresce, dá frutos, sustenta vidas, perde folhas, suporta cortes invisíveis. O fruto amadurece, cai ao chão, rompe-se, apodrece na terra. Aquilo que parecia fim, porém, guarda em silêncio o princípio: a semente permanece.
E daquilo que cai, nasce de novo.
Assim é a chama.
Ela encarna, reencarna, atravessa mundos, corpos, dores, amores, ausências e esquecimentos. Vive tudo o que precisa viver. Aprende o que precisa aprender. Cura o que precisa curar. Às vezes, encontra sua outra face nesta vida. Às vezes, apenas a reconhece. Às vezes, a perde. Às vezes, espera. Às vezes, compreende que a união não pertence ao tempo humano, mas ao tempo da alma.
Pode ser hoje.
Pode ser em um ano.
Pode ser em outra vida.
Pode ser em outro mundo.
Pode ser nunca, como os homens entendem o nunca.
Mas, na eternidade da matéria espiritual, nada que pertence à mesma origem se dispersa para sempre.
Porque a semente pode cair longe da árvore, mas continua trazendo em si a memória do fruto. A árvore pode crescer em outra terra, sob outro céu, em outro tempo, mas continua sendo continuação da mesma vida. A chama pode habitar outro corpo, outra história, outro destino, mas continua ardendo da mesma fonte.
Hoje eu compreendo.
Eu não estou apenas amando alguém. Eu estou vivendo uma experiência de alma. Estou atravessando uma existência para recordar de onde vim. Estou aprendendo que a minha chama também luta, também sobrevive, também atravessa seus ventos, suas chuvas, seus medos, suas perdas e seus próprios silêncios.
Talvez eu parta antes.
Talvez ele parta antes.
Talvez nos unamos nesta vida.
Talvez apenas em outra encarnação.
Talvez em outro planeta, em outra era, em outro corpo, em outra forma de existir.
Mas isso não altera a essência.
Nós somos a face da mesma moeda.
Nós somos a semente do mesmo fruto.
Nós somos a matéria que se separa para aprender e retorna para se reconhecer.
O paradoxo é este:
precisamos nos afastar para lembrar que nunca estivemos separados.
Precisamos viver como dois para compreender que sempre fomos um.
Precisamos cair como fruto, morrer na terra, romper a casca e renascer, para descobrir que a semente nunca deixou de carregar a árvore inteira dentro de si.
E, no fim, quando tudo se desfaz, quando o corpo silencia, quando o tempo se dobra, quando a dor perde o nome, resta apenas a verdade original:
somos da mesma matéria,
do mesmo princípio,
do mesmo centro,
da mesma alma.
E nenhuma distância é capaz de separar aquilo que nasceu da mesma eternidade.
Que texto lindo, Amanda!!! 💝 É uma alegria acompanhar sua jornada! Muita luz!!
Que texto lindo, Amanda!!! 💝 É uma alegria acompanhar sua jornada! Muita luz!!